Uma das transformações mais significativas de A Noite em que Aprendi a Voar aconteceu na montagem. Para além das cenas que foram desaparecendo ao longo do processo, também o ponto de entrada na narrativa foi sendo constantemente repensado.
A primeira versão do filme começava no quarto imaginário de Lúcio. Sentado num sofá, rodeado pelo seu universo interior, o protagonista era introduzido ao espectador antes de qualquer contacto com o mundo exterior. No entanto, à medida que o filme evoluía, tornou-se evidente que esta sequência pertencia a uma versão anterior do projeto. A composição da imagem, o controlo do espaço e a própria encenação tornavam-na demasiado perfeita. Mais do que abrir o filme, parecia resumir e explicar aquilo que o espectador deveria descobrir por si próprio.
Numa versão posterior, o filme passou a começar na loja de conveniência. Este espaço funcionava como um ponto de encontro entre as personagens e permitia situar imediatamente a ação num contexto reconhecível. Contudo, quando a cena acabou por ser removida do corte final, foi necessário procurar novamente uma nova entrada para a narrativa.
A versão seguinte do filme passava a começar diretamente com a corrida noturna de Lúcio. Este início funcionava bem por si só. Colocava imediatamente o espectador em movimento, lançava a narrativa sem explicações e introduzia desde cedo a energia física e emocional da personagem.
No entanto, numa fase mais avançada da montagem, quando começámos a integrar imagens captadas em camcorder, percebemos que existia uma possibilidade ainda mais interessante. Entre esses registos encontrava-se um momento simples: Sun a filmar Lúcio junto ao carrossel. A textura imperfeita da imagem, a espontaneidade do gesto e a ausência de contexto criavam uma sensação de mistério que nos interessava particularmente.
Ao contrário da corrida, que colocava imediatamente o espectador ao lado de Lúcio, esta nova abertura permitia observá-lo à distância. Quem é esta pessoa? Porque está a ser filmada? Qual é a relação entre estas duas personagens? Pela primeira vez, o filme começava com perguntas em vez de respostas.
O carrossel, que regressaria mais tarde ao longo da narrativa, passou assim a funcionar como uma primeira impressão do universo do filme: um espaço simultaneamente nostálgico, íntimo e enigmático. A corrida manteve-se logo de seguida, mas agora surgia já contaminada por esse mistério inicial, convidando o espectador a descobrir gradualmente quem é Lúcio e porque razão aquela noite é importante.