Depois de termos um guião base, já em cima da hora devido a vários problemas na construção da estória, fomos procurar os espaços que iam dar vida ao nosso filme e também contribuir para as ações concretas no guião serem rescritas.
No universo visual do filme, existem dois espaços imaginários fundamentais que ajudam a materializar o mundo interior do Lúcio: o quarto e a gaiola. Ambos funcionam como extensões psicológicas da personagem, transformando emoções e estados mentais em ambientes físicos e tangíveis.
Se, por um lado, o quarto representa um espaço mais íntimo e emocional, construído a partir de memórias, fragilidade e nostalgia, por outro, a gaiola surge como uma representação mais direta e crua do aprisionamento e da perda de controlo. Apesar de diferentes na sua forma e origem, os dois espaços partilham a mesma essência: a ideia de um mundo interior instável, onde o conforto e o desconforto coexistem constantemente.
Estes cenários não servem apenas como fundo narrativo, mas sim como parte ativa da construção da personagem, refletindo de forma física aquilo que Lúcio sente, teme e reprime.
Foi um dos primeiros espaços a ser explorado. Já tínhamos visitado algumas mas agora estava na hora de voltar a procurar e tomar uma decisão. Durante a repérage, este tipo de espaço surgiu como uma possibilidade inesperada. À primeira vista, trata-se de um lugar quotidiano e pouco valorizado, muitas vezes associado a uma ideia de passagem rápida e de consumo imediato. No entanto, precisamente por isso, revelou-se interessante: é um espaço atravessado por pessoas muito diferentes, onde toda a gente entra e sai, mas onde ninguém permanece verdadeiramente.
A loja de conveniência chamou-nos também a atenção pela sua materialidade. Existe uma mistura constante entre cores, embalagens, luzes artificiais e uma estrutura muito rígida, feita de linhas retas, prateleiras e barreiras. Essa combinação cria uma tensão entre o que pode ser lido como "sujo" e o que, paradoxalmente, também pode ser entendido como caseiro ou familiar.
A loja escolhida, o "São Bento Market", foi uma das primeiras que visitámos. O que mais nos chamou a atenção foi a arquitetura do espaço e a forma como permitia o movimento das personagens dentro da loja. Funcionava muito bem para a narrativa, sobretudo tendo em conta que a cena seria filmada em plano de sequência. Também nos interessou bastante a vida fora da loja. A luz, o movimento e a dinâmica da rua ajudavam a dar mais profundidade e naturalidade ao ambiente.









O parque infantil surge como um dos espaços mais ligados à infância e à memória. Durante o processo de repérage, procurámos um parque que não fosse apenas simbólico, mas real na sua totalidade, um lugar que ainda carregasse a presença completa de um parque infantil, com todos os seus elementos reconhecíveis. O interesse aqui não era criar um espaço idealizado, mas encontrar um lugar onde a infância ainda estivesse presente enquanto matéria física.
Ao longo do processo de pesquisa de parques, visitámos espaços de todos os estilos e tamanhos: parques rodeados de natureza, pequenos jardins escondidos na cidade, parques maiores e mais "comerciais", entre outros. Havia dois de que gostávamos particularmente, mas, devido a problemas de produção e autorizações, acabou por não ser possível garantir o acesso, mesmo na semana antes das filmagens.
Perante isso, tivemos de voltar à procura de alternativas. O maior desafio era o facto de filmarmos sempre durante a noite e madrugada, enquanto a maioria dos parques fechava ao final do dia. Foi então que um dos membros do grupo sugeriu o Parque Marechal Carmona, em Cascais. Apesar de o parque fechar, existia segurança 24 horas por dia, o que nos dava alguma esperança de conseguir autorização para filmar durante a noite. E foi exatamente isso que aconteceu. Um dia antes das filmagens, conseguimos finalmente a autorização para usar o espaço.











O carrossel surge como uma imagem ainda mais específica dentro desse universo da infância. Não o vemos apenas como um elemento do parque, mas como um objeto com tempo próprio. O interesse não estava num carrossel "cenográfico", mas num carrossel que tivesse idade, um objeto que já tivesse sido atravessado por várias gerações. O carrossel torna-se assim um ponto de ligação entre passado e presente.
Nós sempre soubemos qual era o carrossel que queríamos para o filme: o carrossel de Cascais. Além de ser muito bonito, tem aquele ar antigo que encaixava perfeitamente no ambiente que procurávamos, e a localização também era ideal. O espaço dava-nos tudo o que precisávamos para a cena funcionar bem. Conseguimos ainda falar com um restaurante mesmo ao lado, o "Visconde da Luz", que acabou por nos ajudar bastante na produção da cena, fornecendo eletricidade e um espaço para montarmos a base de produção.
O maior problema acabou por ser o orçamento. Apesar de serem apenas 4 ou 5 horas de filmagem, o valor pedido era bastante elevado. Felizmente conseguimos arranjar o dinheiro necessário e acabámos por filmar lá. No final, este espaço acabou por ganhar também um significado mais simbólico para nós. Tal como acontece no filme, este carrossel faz parte das memórias e da infância de vários membros da equipa, o que tornou tudo ainda mais especial.






O carro aparece como um espaço de transição e intimidade quotidiana. Procurámos um veículo simples, sóbrio e modesto, que não interferisse com a narrativa nem chamasse atenção para si próprio. O seu papel é quase desaparecer enquanto objeto, servindo apenas como estrutura para a relação entre personagens. É um espaço fechado, onde o silêncio e a proximidade física criam uma forma muito específica de comunicação.
Acabámos por utilizar o carro de uma colega nossa, que também fazia parte da equipa, porque o tamanho e a forma do carro permitiam operar a câmara no interior enquanto o veículo estava em andamento, sem comprometer o espaço necessário para os restantes elementos da equipa. Dessa forma, conseguimos ter dentro do carro a primeira assistente de câmara, o realizador, a gaffer, os atores e ainda o diretor de som, o que era essencial para a cena funcionar da maneira que tínhamos imaginado.






O parque verde onde decorre uma das cenas mais importantes do filme funciona como um espaço de transição entre o real e o imaginário. Um espaço aberto, com vegetação e liberdade de movimento, mas também com uma certa sensação de procura e instabilidade. No centro deste espaço surge uma árvore que se torna o ponto focal da cena. É aqui que acontece um dos momentos mais importantes do filme: a partilha da máscara. Não como revelação direta do rosto, mas como gesto de vulnerabilidade.
Este espaço estava inicialmente pensado para ser filmado na zona do parque infantil. No entanto, devido aos problemas que tivemos durante a produção, não foi possível fazer uma repérage prévia do local nem da árvore que queríamos utilizar. Felizmente, o Parque Marechal Carmona tem muitos espaços verdes e várias árvores que acabaram por nos dar alternativas interessantes. No próprio dia da rodagem desta cena, fizemos a procura do espaço ideal e da árvore certa. Foi tudo um pouco improvisado, mas acabou por resultar muito bem e o local servia exatamente aquilo de que precisávamos.










Este décor, um banco em Campolide, mesmo junto ao Aqueduto das Águas Livres, serviu como o espaço onde a Sun, arrependida após ter abandonado o Lúcio, regressa para o ir buscar. Queríamos um local com vista para a cidade, mas que ao mesmo tempo mantivesse a mesma linguagem arquitetónica e visual do resto do filme. Este banco, apesar de estar relativamente perto das cenas do carro parado, acabou por ter de ser filmado noutro dia por questões logísticas, no mesmo dia do carrossel.
Foi uma cena exigente, filmada já muito tarde, com a equipa a trabalhar até quase ao nascer do sol. No entanto, na montagem do filme percebeu-se que a sequência não funcionava. Os diálogos e as ações não acrescentavam verdadeira informação nem faziam avançar a narrativa, acabando por se tornar uma cena redundante dentro do conjunto do filme.


