Construção das Personagens

As personagens de A Noite em que Aprendi a Voar nasceram de uma aproximação muito direta ao nosso próprio comportamento: à forma como nos observamos, nos escondemos e nos mostramos aos outros. Desde o início, o Lúcio e a Sun surgem como duas presenças complementares, quase como dois modos opostos de estar no mundo. O Lúcio é construído a partir do afastamento: alguém mais reservado, mais interior, que ocupa o espaço de forma contida. A Sun, pelo contrário, nasce como movimento e curiosidade; uma figura que não espera, que procura ativamente o outro e que funciona também como ponto de ligação com o espectador.

Num momento inicial, estas duas figuras estavam inseridas num universo mais alargado, composto por várias personagens secundárias que ajudavam a expandir as relações e o contexto emocional da narrativa. Existia a Ana, mãe da Sun, e o César, ex-namorado da mãe do Lúcio, que chegou a ter um papel funcional dentro da história ao ser a figura que lhe arranjava a máscara rasgada. Mais tarde, surgiu também o Paulo, padrasto da Sun, que se manteve presente até fases muito avançadas da produção.

Com o desenvolvimento do argumento, percebemos que a presença dessas figuras diluía o essencial do filme. Sendo uma curta-metragem de duração reduzida, tornou-se necessário encontrar um foco absoluto que permitisse criar imersão e concentração emocional. A decisão de remover estas personagens não foi apenas estrutural, mas também conceptual: ao eliminar os núcleos familiares, isolámos o Lúcio e a Sun no seu próprio universo, permitindo que a relação entre eles se tornasse o verdadeiro centro do filme.

O Lúcio também sofreu uma transformação significativa ao longo do desenvolvimento. Numa fase inicial, chegou a ser pensado como uma figura mais ativa, quase próxima da lógica de um "justiceiro amador", mas essa abordagem foi sendo abandonada. Em vez disso, a personagem foi-se tornando mais subtil, mais contida e mais dependente de pequenos gestos e variações físicas. O foco passou a estar menos no que ele faz e mais na forma como ocupa o espaço e evita o olhar.

A Sun manteve desde cedo a sua função de ponte. Não apenas como ligação entre o Lúcio e o público, mas também como elemento de abertura do próprio filme. A sua curiosidade constante e a forma direta como se movimenta contrastam com a contenção do Lúcio, criando um equilíbrio que sustenta a narrativa. Ao mesmo tempo, a Sun nunca funciona apenas como um mecanismo narrativo, a sua presença tem autonomia emocional e uma necessidade própria de exploração.

Ao longo do processo, tornou-se claro que o filme não precisava de um universo alargado de personagens, mas sim de uma relação suficientemente densa entre duas pessoas para sustentar tudo o resto. A eliminação das figuras secundárias não empobreceu o mundo do filme, pelo contrário, permitiu concentrar toda a atenção naquilo que nos interessava verdadeiramente: a forma como duas pessoas tentam aproximar-se num espaço de incerteza.

A relação entre o Lúcio e a Sun foi também deliberadamente construída a partir da ambiguidade. Existe uma ligação forte entre ambos, mas essa ligação nunca é totalmente definida. Essa indefinição não é um vazio, mas uma escolha: refletir a forma como, na realidade, muitas relações existem sem necessidade de serem nomeadas.

Lúcio

Lúcio foi construído como uma personagem marcada pela contenção e pela dificuldade em expor aquilo que sente. Ao longo do desenvolvimento, afastámo-nos progressivamente da figura inicial do "justiceiro amador" para nos aproximarmos de alguém mais vulnerável e introvertido. Interessava-nos menos aquilo que ele fazia e mais a forma como ocupa o espaço, evita o olhar e procura proteger-se dos outros.

Durante o processo de desenvolvimento associámos a personagem ao plástico: um material transparente, frágil e instável. Tal como o fato que utiliza, o plástico protege, mas pode rasgar-se a qualquer momento. Esta fragilidade tornou-se uma imagem recorrente para pensar o estado emocional da personagem e a forma como enfrenta o mundo.

Moodboard · Lúcio
Sun

A Sun surge como contraponto ao Lúcio. Enquanto ele se fecha sobre si próprio, ela move-se em direção ao desconhecido. A sua curiosidade conduz a narrativa e aproxima o espectador de um universo que inicialmente lhe é estranho.

Apesar dessa abertura, interessava-nos construir uma personagem atravessada por fragilidades próprias. Associámo-la à figura da lebre, símbolo de vulnerabilidade e alerta permanente, e à textura do veludo, cuja suavidade esconde uma delicadeza facilmente ferida. O figurino procurou refletir esta dualidade: as peças escuras sugerem um lado mais reservado e melancólico, enquanto os apontamentos de cor revelam uma energia criativa que persiste apesar das inseguranças.

Moodboard · Sun