Curiosamente, a ideia da gaiola surgiu primeiro por uma necessidade técnica e só depois ganhou o significado simbólico que acabou por ter dentro da narrativa.
Desde o início que queríamos muito ter pombos no estúdio. Quantos mais, melhor. No entanto, tanto o coordenador do curso como o técnico do estúdio explicaram-nos que, para isso ser possível, teríamos obrigatoriamente de construir uma estrutura de rede ou grade que impedisse os pombos de subir para a teia do estúdio. O problema é que essa solução seria bastante complexa, cara e exigiria uma estrutura enorme.
Durante um dos brainstorms da equipa, surgiu então uma ideia que acabou por desbloquear tudo. Um dos colegas perguntou: "Mas malta, e se o Lúcio estivesse preso numa espécie de gaiola ou galinheiro, com os pombos lá dentro?"
A partir daí, a ideia começou imediatamente a fazer sentido para toda a gente. Não só resolvia o problema técnico, como também reforçava muito a linguagem simbólica do filme. A gaiola passou a representar de forma mais direta a sensação de aprisionamento emocional do Lúcio, quase como se ele estivesse preso dentro do seu próprio mundo mental. Ao partilhar o espaço com os pombos, a personagem aproxima-se deles e torna-se também ela uma espécie de animal enclausurado. Mais um pombo preso dentro da sua própria gaiola.
Esta coexistência entre Lúcio e os pombos cria uma imagem desconfortável e quase degradante, onde o espaço humano se mistura com o animal. A presença dos pombos ajuda a normalizar o aprisionamento e reforça a ideia de abandono, tornando o ambiente mais cru, instável e sufocante.
A execução desta ideia revelou-se um dos maiores desafios de todo o projeto. A construção da estrutura exigiu cerca de uma semana de trabalho intensivo, envolvendo várias pessoas da equipa e muitas horas de montagem durante a noite.
O processo começou com a modelagem de dois tubos multicamada, utilizados para criar os arcos principais da estrutura, e de um terceiro tubo que serviu como base circular da gaiola. Depois disso, os tubos foram unidos no centro e, já com a estrutura montada, acrescentou-se um pequeno arco de reforço no topo para garantir maior estabilidade e sustentação.
A fase seguinte foi a aplicação da rede de galinheiro, que acabou por ser uma das etapas mais difíceis de executar. A rigidez e a tensão da rede faziam com que os tubos, mais maleáveis, empenassem constantemente, obrigando a vários ajustes ao longo da montagem. Para contrariar essa deformação e garantir também a segurança dos pombos e do ator, toda a rede foi cuidadosamente fixada à estrutura com braçadeiras.
Apesar da complexidade técnica, o resultado final conseguiu transmitir exatamente aquilo que pretendíamos: uma sensação de desconforto, fragilidade e aprisionamento constante. A gaiola tornou-se não apenas um elemento cénico, mas quase uma representação física do estado emocional do Lúcio.






















