O Quarto Imaginário de Lúcio foi provavelmente o décor mais complexo e com maior exigência a nível de arte.
Este quarto concentra-se na ideia de um void, um espaço infinito e abstrato onde Lúcio projeta os seus desejos imaginários e todo o seu universo emocional. O fundo negro representa o vazio interior da personagem e a constante sensação de incerteza. Apesar de funcionar como um lugar de conforto e refúgio, é também o espaço onde habitam os seus medos, inseguranças e pensamentos mais íntimos.
O negro simboliza uma personagem perdida, sem luz, presa num mundo solitário onde sente que é o único habitante. Todos os elementos presentes no espaço estarão suspensos, como se flutuassem num limbo emocional, reforçando essa sensação de irrealidade e isolamento.
O cavalo de carrossel representa o apego emocional às memórias e ao conforto do passado. É um objeto que Lúcio não consegue largar, consumindo-o e atraindo-o repetidamente. Existe quase uma lógica infantil nesse gesto, como uma criança que insiste em continuar a usar a chucha porque ainda não consegue abandonar essa sensação de segurança. O carrossel transmite fantasia, inocência e o desejo impossível de parar o tempo, guardando memórias que a personagem gostaria de tornar eternas.
Os peluches funcionam como fragmentos do passado que Lúcio conseguiu transportar para o presente. São símbolos de conforto, inspiração e vontade de continuar. Representam uma presença inevitável e essencial no seu mundo emocional. Mais do que simples objetos, os animais tornam-se um suporte sentimental e uma ligação instintiva que Lúcio ainda mantém com o mundo à sua volta.
A ideia para a envolvência do quarto e para a utilização dos ramos surgiu durante um passeio numa floresta. O emaranhado dos troncos e dos ramos fazia lembrar uma trovoada congelada no tempo, e essa relação entre o caos e a beleza natural acabou por inspirar a forma como imaginámos o mundo interior do Lúcio.
O contraste entre a brutalidade dos ramos e a sua fragilidade visual funciona como uma metáfora da própria personagem. Apesar de parecerem fortes e resistentes, os elementos do espaço estão constantemente num estado de tensão e instabilidade. Os peluches, suspensos no ar e aparentemente frágeis, parecem estar sempre em risco de cair ou sofrer algum dano, quase "presos por um fio". Essa imagem traduz visualmente a ansiedade constante e a fragilidade emocional do Lúcio.
O processo de criação e montagem do cenário passou por várias fases e obrigou a uma grande adaptação entre as diferentes equipas. A construção do quarto começou com a recolha de peluches da infância pertencentes aos próprios membros da equipa, o que acabou por dar ao espaço uma carga emocional muito mais autêntica e pessoal.
Inicialmente, a ideia era suspender os ramos no ar, criando um efeito semelhante a uma trovoada à volta da personagem. No entanto, devido a limitações técnicas relacionadas com a iluminação e também após uma reavaliação do impacto narrativo da cena, decidiu-se colocar os ramos no chão. Curiosamente, essa mudança acabou por beneficiar bastante o espaço, criando uma atmosfera mais pesada, terrosa, claustrofóbica e trazendo também a ideia de ninho.
A montagem prática do cenário exigiu ainda várias soluções técnicas específicas. Foi colocada alcatifa em todo o chão para delimitar visualmente a área do quarto e criar contraste com os elementos naturais. Para dar a ilusão de suspensão dos peluches, estes foram presos à teia do estúdio com fio de pesca, permitindo esconder os suportes e reforçando a sensação de vulnerabilidade e instabilidade.
Por fim, os grandes ramos reais foram estrategicamente colocados em redor do sofá, criando uma espécie de barreira natural que enclausura a personagem dentro do seu próprio espaço de conforto. O quarto transforma-se assim num refúgio emocional, mas também numa prisão construída pelas próprias memórias e inseguranças do Lúcio.











